NOTÍCIAS DE SINES

A ILHA AQUI AO LADO

Ao encontro do Pessegueiro:


A poucos quilómetros por terra e a magras milhas marítimas, fica a Ilha do Pessegueiro.

Património Nacional desde 1990, a Ilha recebe visitas de curiosos de toda a parte.

Como manda o calor, o Notícias de Sines embarcou a bordo do Horizonte e foi ver, de perto, o pessegueiro da Ilha.

O portinho de Porto Covo é um lugar típico. Cheio de barcos e barquinhos habituados a furar o mar, visto sob o olhar frio de quem vem de fora, mais se assemelha a uma pintura. É daqui que parte todos os dias do Verão o barco Horizonte, rumo à Ilha do Pessegueiro.
Do ancoradouro para a lancha de Joaquim Matias, saltam turistas de fora e de dentro. Mais de dentro do que de fora. Cerca de 80% destes vêm do norte do país. Pagam dez euros por uma viagem de perto de duas horas, na procura do pessegueiro. O tal, do Rui Veloso.
"O que eu tenho melhor da Ilha é gostar tanto dela". Ainda de longe, o mestre Joaquim Matias vai apresentando a "menina dos seus olhos". Está habituado a estas águas desde os 12 anos. Nascido na terra, conhece de cor as surpresas que o mar reserva a quem se aventura a navegar por estas bandas.
É com orgulho que aponta a todas as rochas escondidas debaixo da água, enquanto deixa o motor do barco em ralenti. "Só se mudarem de sítio!". Conta que foi por isto que lhe foi atribuída a concessão da Ilha, pelo Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina, que em todos os anos está vigente de 1 de Junho a 15 de Setembro, mesmo concorrendo com mestres de barcos maiores. De outra forma,seria muito perigoso navegar por estes mares. À medida que o barco avança, vai-se sentindo o cheiro do mar. Os salpicos "também fazem parte da viagem", brinca o mestre, empresário no Verão e pescador no Inverno. Enquanto se observa a degradação da Ilha, na parte oeste desta, o marinheiro da embarcação, nada mais nada menos do que Sónia, a filha de 18 anos de Joaquim Matias,fala das dificuldades que o pai tem enfrentado, durante os quatro anos que tem desta actividade. "Sai muito caro fazer isto. Às vezes, não compensa... O meu pai é que continua a ter esperança, acha que
um dia pode vir a fazer isto o ano todo".

EROSÃO Á VISTA
Os ganhos são repartidos por duas guias (estagiárias oriundas da Universidade de Évora), concessão da área, manutenção e combustível do barco, etc. No fim, resta muito pouco para quem faz da Ilha quase a sua casa. "Com um barquinho maior, já dava para visitar a Ilha durante mais tempo". A aguardar o resultado de uma candidatura a apoios financeiros, Joaquim Matias lamenta, por exemplo, que este ano o Verão tenha chegado tão tarde. O Horizonte apenas saiu para o mar a 2 de Julho.
Quando o mar mexe um pouco mais, o mestre prefere ficar em terra, "só para não assustar as pessoas, não é que haja perigo neste tempo".
Chegado à Ilha, o homem de figura franzina e tez queimada do sol ancora o barco com o auxílio da filha/marinheiro. É tempo de visitar aqueles três palmos de terra (mais exactamente, 340 m de comprimento e 235 de largura, situados a 250 metros da praia da Ilha do Pessegueiro), repletos de história e estórias de tempos idos. "Vamos ao encontro do pessegueiro", desafia Joaquim Matias que, com a folga de uma das guias, hoje lidera um dos passeios terrestres à Ilha.
Estruturas romanas são mais do que muitas, por entre habitações e fábricas de peixe. A Ilha do Pessegueiro constituiu um importante entreposto comercial para os romanos e porto de abrigo do Cabo de São Vicente ao Estuário do Sado para quem se defendia de
piratas e corsários. Daqui,seguia peixe das salgas (do século I ao XV) para todo o Alentejo, no tempo em que ir de Sines a Beja demorava uma semana.
Os vestígios ilustram o percurso da Ilha, a juntar às ilações dos historiadores. O forte, muito perto do aniquilamento, nem tão pouco pode ser observado de perto, tal é o seu estado de degradação, e tendo em conta que sobreviveu ao terramoto de 1755:
"É a única ilha que temos tão perto da costa portuguesa e tão mal tratada!".
Joaquim Matias é da opinião de que deveria ser tomada alguma medida que travasse a erosão, que "a cada Inverno que passa, parte mais uma pedra" e que, impedisse a visita de quem para isso não esteja licenciado. "Que seja a Natureza a destrui-la, mas não o homem".
Diz-se que as fendas da Ilha, daqui a alguns anos, podem levar a fragmentação desta e progressivo desaparecimento.

PLANTAS DE SAL
De alguns visitantes estrangeiros, o mestre conta que preferem observar a Ilha de longe, permanecendo no barco "para não pisar a área que foi classificada como Património Nacional em 1990". A grande luta são as gaivotas. Destroem as restantes aves e tentam atacar quem visita a Ilha, numa verdadeira epidemia.
Em relação à conservação deste património, o Parque Natural, pela voz do director, João Nunes, atesta tencionar levar a cabo um estudo científico, a ter início lá para o ano.
Cisternas, pedreira e varadouro são algumas das 'recordações' deixadas pêlos Romanos numa Ilha em que ainda está por desvendar o misterioso desenvolvimento de plantas que se desfazem em sal. "Se chover, elas morrem". Joaquim Matias apresenta ainda a figueira da Ilha, uma árvore com cerca de 1/2 metro, que nunca deu fruto, mas que o mestre conhece desde que visita a Ilha. Na verdade, esta é a única árvore de fruto do local. O Pessegueiro, esse, ficou-se pela canção do outro. Aqui, a palavra, em latim, significava pesqueiro, e não pessegueiro, atendendo às fábricas de peixe.
Finda a viagem, há que voltar a terra, levando um número máximo de seis pessoas, a juntar ao mestre, ao marinheiro e à guia. Lotação esgotada, o Horizonte faz-se ao mar, que, por dia, tem de transportar uma média de 30 a 40 pessoas. Também há quem pague a viagem só para fazer pesca desportiva. O que interessa é que "este ano o negócio está mais fraco". O método tradicional de fazer propaganda "boca a boca" parece trazer agora menos visitantes do que os 1500 do ano passado.

Rita Elias
Noticias de Sines, 24 de Agosto de 2002